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Terça, 1 de julho de 2008, 16h17 A arma da paz |
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Ninguém é bonzinho nessa "guerra". O petróleo importado custou ao Brasil quase US$ 12 bilhões no ano passado, mas aqui quem impede a alta dos derivados é o etanol. Armado de um simples pé de cana, o Brasil está imune, até aqui, à avassaladora alta que faz o mundo refém do combustível caro, fóssil e poluente, "manipulado por dedos sujos", como denunciou o presidente Lula.
Se fosse verdade que os biocombustíveis inflacionam, o que seria de nós, pobres brasileiros? Afinal, aqui, o álcool já representa mais de 50% do consumo e é justamente um dos maiores freios da inflação. O outro derivado da cana, o açúcar, não subiu nem um centavo nos últimos dois anos, contendo o custo da cesta básica. Ao contrário, o preço do açúcar caiu. E o álcool concorrerá, ainda, para o ingresso no País de cerca de US$ 3 bilhões, proporcionado pela exportação, este ano, de quatro bilhões de litros.
Enquanto multinacionais de alimentos, principalmente, se unem contra a produção de biocombustíveis no Primeiro Mundo, no Brasil, dos 140 milhões de toneladas de grãos que produzimos, pelo menos 10 milhões são cultivados em 1,6 milhão de hectares de renovação dos canaviais. Ao contrário da Europa, para nós o biocombustível etanol propicia (e barateia) a produção de alimentos.
O álcool ajuda a inibir o preço da gasolina, porque enquanto ele tem preço, a gasolina tem tarifa. Em conseqüência, tudo o que depende da gasolina, da produção ao mercado, também fica com custo menor com a ajuda do álcool. Seu preço é fruto da livre economia de mercado, enquanto até quem não tem carro é obrigado a pagar pela gasolina (que não usa!). Como se ao final de uma refeição, quem acabou de chegar ou não jantou também fosse forçado a pagar a conta.
Pense, antes de dizer que algo barato é vendido "a preço de banana". Enquanto a Ceagesp de São Paulo paga R$ 700,00 por uma tonelada de banana, o produtor canavieiro recebe R$ 27,35 pelos mesmos mil quilos no campo (!). "Por isso, ninguém rouba caminhão de cana", diz um amigo. Quer uma comparação humilhante? Na semana passada, uma tonelada de substrato de esterco era vendida por R$ 255,55, em Ribeirão Preto, capital brasileira do agronegócio e maior pólo produtor de açúcar e álcool do mundo.
Um litro de álcool hidratado, que abastece o carro com motor flex, saía da usina outro dia por R$ 0,63. Há exatos sete anos, saía por R$ 0,69 (os preços da cana, do açúcar e do álcool cobrados pelas usinas são transparentes e estão à disposição de todos no site do Centro de Estudos Avançado em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (www.cepea.esalq.usp.br/cepea).
Toda essa realidade revela algo importante: além de o etanol sustentar o preço da gasolina artificialmente baixo, ele ainda colabora para que esses cálculos afetem menos o bolso do País. Estendamos esse raciocínio para a energia, como um todo. Da mesma maneira que o etanol segura o preço da gasolina, o bagaço da cana pode vir a se tornar um inibidor do preço das energias hidrelétrica, térmica, proveniente de gás natural, do carvão... O futuro pode nos reservar uma situação energética mais independente, é só o País não perder tempo e utilizar o conhecimento e material que já tem como experiência. São muitos os frutos que o mercado da cana pode gerar.
Com os avanços produtivos que o Brasil tem feito nos canaviais e com etanol tão barato, podemos continuar resistindo às crises do petróleo e a sua avassaladora alta que faz o mundo refém do combustível caro e poluente. Conseguimos essa imunidade armados de um simples pé de cana.
Maurilio Biagi Filho é presidente do Conselho do Grupo Moema Açúcar e Álcool, do Grupo Maubisa, do Comitê de Agroenergia e de Biocombustíveis da Sociedade Rural Brasileira, conselheiro da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base, da Câmara Americana de Comércio, da União da Indústria de Cana-de-açúcar e do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp