Ações comunitárias

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Terça, 19 de fevereiro de 2008, 09h20 

Aterro vira cartão postal de cidade de Minas

Antonio Gaspar
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Um grupo do Departamento de Engenharia Sanitária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que, com pouco dinheiro, muita criatividade e determinação, é possível buscar soluções que mudam a vida de uma comunidade. Catas Altas com seus 5 mil habitantes, localizada a 120 quilômetros de Belo Horizonte, foi a escolhida para o desenvolvimento de um projeto de aterro sustentável, que virou o cartão postal da cidade, visita obrigatória de turistas que passam pela cidade.

Antes dele, a prefeitura tinha de usar dinheiro do orçamento para realizar a coleta, o lixo era queimado e os funcionários trabalhavam sem as condições ideais. Hoje, lixo virou capital, é reciclado e não polui mais o solo, diz Liséte Celina Lange, professora-adjunta do departamento de Engenharia Sanitária da UFMG. A coleta seletiva, entretanto, ainda esbarra em questões estruturais, políticas e culturais, lamenta a cientista.

O projeto começou a ser tocado em 2001, a partir de um edital da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O grupo da UFMG propôs a construção de um aterro sustentável. A prefeitura já tinha o terreno e os cientistas receberam cerca de R$ 100 mil usados, inclusive, para pagamento de bolsas dos alunos, deslocamento e compra de material de laboratório.

O grupo de pesquisadores optou pelo sistema de valas, com drenagem de líquidos e gases, o mesmo procedimento usado em aterros sanitários. "Fizemos um estudo e percebemos que a produção de chorume era pequena, mesmo nos meses de chuva. Então, resolvemos tratá-lo antes de liberar na natureza aproveitando as características locais. Decidimos usar água oxigenada e minério de ferro (que eles têm em grande quantidade), o que resulta na reação de Senton", explica Liséte. O sistema para captação de gases foi montado com a utilização de garrafas PET. Como não havia luz na área do aterro, a saída foi optar por um rolo compactador, movido por um trabalhador.

Em um trabalho posterior, os especialistas da UFMG perceberam que, no modelo de compactação, a camada intermediária (terra) consumia 70% do espaço ocupado pelo lixo. A saída para reduzir o uso de terra e a ocupação de espaços foi jogar uma camada de capim, facilmente encontrado na região, sobre o lixo. Com isso, foi possível reduzir a necessidade de terra para 20%, explica Liséte.

Com a construção de um galpão para a triagem do material, adotou-se a compostagem e a coleta seletiva em dois bairros. Quando o projeto foi implementado, a unidade recebia 1,5 tonelada de lixo por dia. Hoje, com o aumento da população por conta da reativação de uma mina da Vale, são recolhidas 2,6 toneladas/dia. Cinqüenta e cinco por cento do lixo é orgânico. Em 2001 cada vala tinha três meses de vida útil. Com a triagem, coleta seletiva e uso de capim na camada intermediária, cada vala passou a ter um ano de vida útil.

Dez pessoas trabalham no processo que vai da coleta à compostagem. A parte reciclável do material é vendida em Belo Horizonte. O composto orgânico é usado na jardinagem do município. Além do salário, agora os funcionários recebem parte dos recursos provenientes da venda o material reciclável. A outra, é reaplicada na compra de equipamentos. Com a obtenção da licença ambiental, a prefeitura recebe recursos do ICMS ecológico todo mês. É a soma dos recursos que torna o aterro sustentável.

De 2001 a 2004, foram realizados estudo, implantação e monitoramento. O projeto levou Catas Altas a ganhar vários prêmios, entre os quais o do Instituto de Engenharia de Saúde Pública. Com a mudança da administração municipal, entretanto, houve um arrefecimento das ações. Houve falhas na colocação de lixeiras e na coleta seletiva feita por caminhões. "Os moradores diziam: por que vamos separar o lixo, se tem gente paga para fazer a triagem lá no aterro?", conta Liséte. Para a pesquisadora, a coleta seletiva só será possível no Brasil no longo prazo.

"A experiência mostrou que é preciso trabalhar a população para que incorpore o sentimento de coletividade e superar a carência de educação. As pessoas têm uma relação quase mágica com o lixo que produzem. Colocam na rua e ele some. Simples. Elas não sabem sobre o destino e as conseqüências para o meio ambiente se ele não for tratado adequadamente. Precisamos pensar também na tecnologia se quisermos trabalhar adequadamente a reciclagem, pois a indústria quer ter certeza de que o material que vai chegar a ela terá qualidade para ser reutilizado. Na Alemanha, por exemplo, há cidades que usam separador ótico para vidros."

A experiência tem sido excelente para a universidade. O projeto obtém grande repercussão tanto no plano nacional quanto internacional. Além da capacitação, os pesquisadores perceberam que, sem uma forte determinação do Estado e manutenção das políticas públicas nas trocas das administrações, fica muito difícil o desenvolvimento de projetos sérios na área de saneamento no Brasil. "Nosso projeto, que é simples e de baixo custo, ainda não foi replicado. Tem prefeito que prefere não agir. O aterro sanitário requer um bom volume de recursos. Se ele optar pelo sustentado, caso do nosso modelo, terá de convencer os órgãos ambientais de que ele merece licenciamento. Então, não raro, o prefeito opta pelo imobilismo", diz Liséte.

No momento, o grupo de pesquisadores da UFMG realiza um estudo destinado a determinar o melhor tratamento para o chorume. "Até agora, o que se usa são os parâmetros desenvolvidos para o esgoto." O trabalho reúne dez universidades, como USP e Federal de Santa Catarina.

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