Ações comunitárias

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Quarta, 23 de janeiro de 2008, 16h10 

Projeto multiplica por sete a renda no semi-árido

Antonio Gaspar
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Um projeto realizado no sertão de Alagoas, o H2SOL, de comum acordo com os habitantes locais, mostra como é possível criar condições para o desenvolvimento sustentado de comunidades isoladas do semi-árido sem, necessariamente, imensos aportes de capital, como é o caso do projeto do governo federal de transposição do Rio São Francisco. Trabalho realizado pelo Instituto Eco-Engenho em Baixas, no Município São José da Tapera, a 220 quilômetros de Maceió, certamente vai retirar a cidade do topo da lista dos agrupamentos com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

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O que começou, em 2004, com a construção de um poço em uma comunidade constituída por 40 residências e cerca 240 pessoas, com renda familiar mensal de R$ 90, se transformou em um excelente negócio que está gerando renda familiar mensal de R$ 657 e em um movimento de grande transformação cultural. O resultado do negócio é uma marca: Pimenta da Tapera. Em quatro anos, foram investidos no H2SOL cerca de US$ 160 mil.

Baixas, a 220 quilômetros de Maceió, não tinha água, energia e lazer. Parecia ter sido condenada ao atraso. Hoje, graças à criatividade e à tecnologia, avança sem e apesar dos governos local e federal. Nem mesmo a renda mensal familiar dos moradores podia ser acrescida pela bolsa-escola, pois o estabelecimento de ensino mais próximo está localizado em outro município, em Pão de Açúcar.

A vida da população começou a mudar em 2004, quando o Instituto Eco-Engenho decidiu construir um poço no local. "Achamos água salobra. No contato com a comunidade, resolvemos colocar a questão de como desenvolver o agrupamento de pessoas com recursos ambientais próprios, meio que fazendo um contraponto ao projeto de transposição do São Francisco, que não vai ajudar as comunidades isoladas", explica José Roberto Fonseca, presidente do Instituto Eco-Engenho ¿ Tecnologia Aplicada ao Desenvolvimento Sustentado.

A primeira idéia, segundo Fonseca, foi utilizar energia solar fotovoltaica para bombear a água do poço. O primeiro obstáculo foi convencer instituições e entidades religiosas de que era um método de utilização simples a partir de uma tecnologia sofisticada disponível. "As instituições pensavam em saídas tradicionais, a partir de conhecimentos já adquiridos, que não implicavam qualquer potencial de avanço", diz.

Vencido o primeiro obstáculo, ficou claro para os dirigentes do Eco-Engenho, durante as conversas com a comunidade, que era preciso usar a água para produzir capital, gerar renda. "De novo, foi preciso enfrentar as teses e posições já arraigadas, de que é preciso acumular água e alimentos. Que os agrupamentos de pessoas no sertão fazem escambo... Nós queríamos promover a inclusão social e a fixação das pessoas no campo a partir da informação e da tecnologia. A água era importante para gerar renda. Com renda, os habitantes podiam até mesmo comprar água", afirma o presidente do instituto.

Sem apoio dos governos estadual e federal, a Eco-Engenho foi buscar recursos no exterior. Teve sucesso com a Fundação La Guardia e Usaid. "Com outras organizações brasileiras apresentamos um conjunto de projetos que ganhou a concorrência promovida pela Usaid. Então pudemos construir um dessalinizador termossolar." Apesar do nome, um sistema simples. São dois poços. Em um fica a água salobra, que evapora e volta a condensar ao tocar em um teto plástico colocado sobre o poço. Dali, a água destilada cai em um canal de coleta e é enviada a outro poço, para uso. Na Califórnia, Estados Unidos, esse é um procedimento comum. Existem lá várias "fazendas de água".

Com o resultado do processo, a comunidade passou a contar com 200 litros de água destilada por dia. "Antes, para tê-la, era preciso se deslocar até barreiros distantes ou usar carro-de-boi para buscar água em pequenos açudes", conta Fonseca.

Com a questão da água resolvida, o desafio era como e o que produzir para conseguir melhorar o ganho dos moradores ¿ a renda das famílias era proveniente da produção de vassouras de palha. A sugestão foi a hidroponia, processo de cultivo sem contato com o solo, que usa canaletas por onde a água circula continuamente com nutrientes, como fertilizantes químicos, com pequena perda por conta da evaporação.

"As instituições religiosas contra-argumentaram. Sugeriram a criação de uma horta comunitária. Dissemos que, estando a 220 quilômetros de Maceió, não haveria como escoar a produção de forma adequada. As alfaces e outros produtos chegariam à capital sem condições de uso. Os habitantes já tinham produção de mandioca, feijão, milho e outros itens para sustento e isso não havia sido capaz de tirá-los da miséria. Queríamos cultivar algo que permitisse agregar valor."

De acordo com o presidente da Eco-Engenho, a decisão foi pelo plantio de pimentas. "O valor agregado pode ser multiplicado por cinco depois de colocadas em vidro com vinagre e sal. Além disso, tínhamos como estabilizar o produto, que pode ser conservado por um ano." Foi então preparado um plano de negócios com custos de investimento, produção, beneficiamento. As variedades escolhidas foram pimenta dedo de moça, malaguetão, pimenta de cheiro amarela e pimenta biquinho, que não arde e é a última sensação nos restaurantes de grandes cidades. O modelo de produção não é cooperativado, mas familiar.

Mas aí entrava de novo um impeditivo para a produção em escala: era preciso mais água. "Construir novos poços com dessalinizadores poderia encarecer o processo. Então um velhinho lembrou que, numa serra próxima, a 1.200 metros de altitude, havia uma rocha com uma fenda de onde brotava água. Depois de alguns testes percebemos que era um grande reservatório subterrâneo. Fizemos drenagem e colocamos mangueiras para levar a água para caixas próximas das casas. Em uma semana, os dois reservatórios de 5 mil litros cada estavam cheios."

Mas ainda faltava a energia elétrica e um espaço para beneficiar a pimenta. A Fundação La Guardia doou um painel de 2,5 quilowatts de energia fotovoltaica. O passo seguinte foi construir um galpão multiuso, com recursos do Funcred, de Alagoas, chamado de Unidade de Beneficiamento Artesanal de Pimenta. No local também há TV e vídeo. "Com uma boa estratégia, água e energia solar, a comunidade pôde produzir, beneficiar os produtos, gerar renda e emprego e ainda ampliar as possibilidades de lazer."

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