Estive noutro dia conhecendo o delta do Tigre, norte de Buenos Aires. Impressionei-me com a forte vegetação que recobre a área, protegendo os milhares de cursos d’água que se juntam na bacia do Prata. A grande maioria daquelas árvores são exóticas aos biomas da Argentina, vindas da Austrália, da América do Norte, da Europa, do Brasil. Cumprem, entretanto, papel fundamental na ecologia do Tigre. Lembrei-me das discussões havidas aqui no Brasil, durante as discussões sobre o novo Código Florestal, quando os ambientalistas radicais se posicionavam sempre contrários ao uso de espécies exóticas no processo de recuperação de áreas degradadas, especialmente nas APP’s, as áreas de preservação permanentes nas beiradas dos córregos. Existe, na verdade, uma repulsa injustificada contra as plantas exóticas, levando á idolatria das espécies nativas. Quase um tabu: espécie exótica é do mal; nativa, do bem. Como todas, tal polarização é falaciosa. Sob certas condições, plantações frutíferas ou silvícolas podem perfeitamente ser utilizadas para ajudar na recomposição ambiental, e além de proteger as APP’s, mostram função produtiva. Ganha a natureza, ganha o agricultor. O perigo das plantas “invasoras’ nos ecossistemas não autoriza os ecoterroristas, aqueles que pregam a catástrofe planetária, a abolir a silvicultura inteligente. Nas áreas degradadas, algumas espécies florestais podem servir como "pioneiras", sombreando as mudas nativas para que cresçam melhor, favorecendo o processo de recuperação ambiental. Tal processo se verifica in locu na Serra do Mar paulista, entre Mogi das Cruzes e Bertioga, onde a Mata Atlântica se reconstrói nas sombras dos antigos eucaliptais, raleados, mantidos pela Suzano, empresa de celulose. A silvicultura inteligente, como a agricultura sustentável, criam uma segunda natureza, que ajuda, e não atrapalha, a civilização humana.