O ambientalismo sempre mostrou dificuldades para ser ideologicamente rotulado. As críticas ecológicas direcionadas, há 50 anos, ao capitalismo selvagem poderiam ser igualmente dirigidas ao socialismo autoritário. Quando o ambientalismo nasceu, ainda na época da Guerra Fria, o mundo dividido entre capitalistas e comunistas, parecia bucólico discutir a depredação da natureza.
No fundo, mesmo concorrendo entre si pela supremacia mundial, EUA e URSS mostravam a mesma visão sobre o progresso e a sua relação com a natureza, ou seja, nunca ligaram verdadeiramente para a devastação ecológica. A poluição era vista, por ambos os lados, como o “preço do progresso”.
A diferença dependia da liberdade de expressão. Na cortina de ferro soviética, os graves problemas da economia centralizada pelo Estado pouco apareciam. Nos países livres, ao contrário, a imprensa livre dava vazão às modernas críticas do ambientalismo, aproximando-o dos contestadores do sistema capitalista.
Por essa razão, os ambientalistas foram chamados pelos conservadores de “melancias”, quer dizer, verdes por fora, vermelhos por dentro. Esse apelido justificava-se mais pela novidade que os ecologistas representavam do que propriamente por suas posições políticas.
Na esquerda socialista, sem nenhuma tradição com o tema ambiental, muitos os consideravam uma espécie de anarquistas verdes, chamados depreciativamente de “porraloucas”. Os marxistas entendem que a contradição fundamental da sociedade se dá entre o capital e o trabalho, não na relação do homem com a natureza.
Após o fim do comunismo e a distensão política mundial, grupos de ecologistas europeus fundam os partidos verdes, mostrando independência da política tradicional. Ao mesmo tempo, em todo o mundo, as modernas questões que envolvem a relação do homem com a natureza começam a ser adotadas pelos antigos partidos políticos, sem distinção ideológica.
Ao chegar ao Brasil, onde o sistema partidário se conduz sabidamente mais frágil, uma miscelânea de posições se constitui, confundindo a coloração ideológica do ambientalismo. Mesmo assim, fica cada vez mais claro que o dilema político contemporâneo não se situa mais no contexto do debate ideológico sobre “esquerda versus direita”. Para o ambientalismo, pouco importa saber se o regime é capitalista ou socialista, neoliberal ou estatizante. A questão fundamental reside na compreensão sobre o caráter do desenvolvimento, se sustentável ou predatório. Progressistas defendem as energias renováveis, para fugir do petróleo; conservadores querem mais termoelétricas movidas à óleo combustível. Por aí vai a questão.
Alinhar-se com as propostas ambientalistas exige superar os cacoetes da política tradicional, especialmente o ultrapassado debate entre direita versus esquerda. O desenvolvimento sustentável aceita apenas um rótulo, o da modernidade. Aqui mora o grande debate do século 21.