Economia Verde

Adeus carvãozinho de cana

25 abr

Publicado às 16h52

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O fim das queimadas de cana se aproxima: usinas paulistas já colhem 85% dos canaviais com máquinas, sem colocar fogo na plantação. Entre os fornecedores independentes de cana, a mecanização da colheita está inferior ainda, na ordem de 50%. Em todo o estado de SP foram colhidos na safra encerrada 4,66 milhões de hectares de cana, sendo 3,38 milhões de ha com cana crua, e 1,28 milhão de ha de cana queimada, resultando muna média de 72,6% sem queimada. O fim do fogaréu não confirmou o temor do desemprego no campo. Houve tempo suficiente para a acomodação e profissionalização da mão-de-obra. O fim das queimadas também decretará a eliminação do trabalho sujo e extenuante dos boias-frias. O resultado positivo advém do Protocolo Agroambiental, proposto pelo governo estadual em 2007. Configurado dentro do projeto estratégico “Etanol Verde”, contou com a adesão de 164 usinas e destilarias paulistas, e todas as entidades de fornecedores, que se comprometeram a antecipar o prazo final das queimadas de cana para 2014 (nas áreas mecanizáveis) e 2017 (nas áreas não mecanizáveis, com declive superior a 12%). Estas afetam 8% da área com cana. O Protocolo Agroambiental expressa um grande exemplo de gestão ambiental compartilhada, com responsabilidades repartidas entre governo e empresas. Parceria de sucesso na busca da sustentabilidade.

Sustentabilidade exige parcerias

18 abr

Publicado às 19h53

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Por mais que alguns políticos, ou organizações civis, queiram se assenhorear da problemática ecológica, tomando como seu privilégio decifrá-la, formou-se certo consenso na sociedade mundial em favor da sustentabilidade. Sente-se, com maior ou menor idealismo, que a pegada ecológica sobre os recursos naturais periga romper os limites do planeta. Vislumbram-se, em decorrência, modificações na produção material, no consumo e no comportamento da civilização humana. Ninguém defende a destruição ambiental. Existe, também, boa concordância sobre a necessidade de se mensurar a sustentabilidade. No início do movimento ambientalista, gritar era fundamental para avançar a consciência sobre os problemas ecológicos. Predominavam os discursos inflamados. Agora, mais que falar, é preciso fazer. E a ação prática somente poderá ter seus resultados aquilatados através da metodologia científica. O enfoque do “measure and management” domina a agenda mundial da sustentabilidade. Todos defendem o desenvolvimento sustentável, mas, e aí surge um problema, cada qual o define, e o mensura, conforme lhe convém. Nesse jogo de interesses, estoura a corrente produtiva no elo mais fraco da cadeia de produção: os agricultores. A modificação tecnológica nas práticas agrícolas, tornando-as mais amigáveis da natureza, nem sempre operam a favor da rentabilidade dos negócios rurais. Os processos sustentáveis geram, muitas vezes, custos – “trade offs” – que comprometem a sobrevivência econômica do produtor rural. Esse viés, o da economia, normalmente tem sido minimizado nas discussões sobre o desenvolvimento sustentável. Carrega-se no ecologicamente correto, destaca-se o socialmente justo, mas se esquece do economicamente viável, deformando o famoso tripé da sustentabilidade. Conclusão: na busca da sustentabilidade, as empresas, os consumidores, ou os governos, em nome da sociedade, precisam auxiliar, e não sufocar os produtores rurais. Desenvolvimento sustentável, para ser efetivo, exige parcerias, não se enfia na goela de ninguém.

Tomate sustentável

12 abr

Publicado às 20h57

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Todos querem entender porque o tomate anda tão caro. As razões são variadas. A demanda por molhos, ketchups etc cresceu 16% nos últimos tempos, enquanto que a oferta ficou comprometida, entre dezembro e março, por secas, da Bahia para cima, e chuvas demasiadas, em Goiás e Paraná. Existem também razões mais complexas. O tomateiro é uma solanácea muito susceptível às doenças fúngicas e bacterianas, e vírus terríveis aniquilam as lavouras. Quanto mais quente o ambiente, mais forte são as infestações. Por essa razão, o uso de defensivos agrícolas é muito intenso, e as lavouras jamais se repetem na mesma área, tendo que “andar” pelo território para escapar dos patógenos que contaminam o ecossistema próximo. Devido à essa mobilidade e instabilidade, quase sempre são arrendatários que tocam as lavouras. Na agenda da sustentabilidade dos tomateiros, muita tecnologia ainda se espera para desenvolver variedades e sistemas de produção mais estáveis. Certamente, as transgenias irão avançar na olericultura.

Turismo ecológico

1 abr

Publicado às 22h11

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Existe uma enorme diferença entre preservar o meio ambiente, e defender o meu ambiente. A primeira apresenta sentido público, compreendendo que a sociedade deve participar e ter acesso aos serviços ambientais. A segunda se caracteriza pelo egoísmo, interessado em cuidar de interesses altruístas mas que, no fundo, são elitistas. Na gestão das Unidades de Conservação (UCs) do país se percebem as duas atitudes: uns, em nome da integridade da fauna e flora, propugnam o isolamento dos Parques e Reservas Florestais; outros justificam abrir suas fronteiras para o uso público, promovendo a educação e o turismo ecológico. Um estudo realizado pelo Instituto Semeia revelou que o elitismo está vencendo essa disputa no Brasil, pois ao contrário do que se faz no mundo todo, 80% dos parques e reservas florestais não têm, por aqui, receita gerada por visitação e 21% sequer recebem turistas. Sem infraestrutura, a maioria das imensas áreas públicas não aprovaram seus planos de manejo, que indicariam o potencial, e as limitações, do uso público de sua área. Na construção da economia verde, será fundamental modificar tal situação, abrindo as UCs à visitação pública, chamando a iniciativa privada para auxiliar o desenvolvimento do turismo ecológico. Quem conhece, e aproveita, se habilita a defender a natureza.

Agrotóxicos e pesticidas

5 mar

Publicado às 12h42

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Pragas e doenças ameaçam a produtividade das lavouras em todo o mundo. No combate a esses organismos danosos, produtores rurais recorrem ao uso de defensivos agrícolas, que, por sua vez, afetam o meio ambiente. Seria possível praticar agricultura sem agroquímicos? Dificilmente. A prática agrícola, em si, interfere no ecossistema natural, causa desequilíbrios e favorece o surgimento das pragas e doenças, relatadas desde essas remotas origens da civilização. Quanto mais aumenta a população humana, a demanda por alimentos e matérias-primas pressiona a agricultura a intensificar seus cultivos e criações. Graças ao desenvolvimento tecnológico, nos últimos 40 anos se observou forte redução, ao redor de 90%, nas doses médias dos inseticidas e fungicidas aplicados na roça brasileira. Quer dizer, se antes um agricultor despejava dez litros de um produto por hectare, hoje ele aplica apenas um litro. Fórmulas menos tóxicas, uso do controle biológico e integrado, métodos de cultivo eficientes, inseticidas derivados de plantas, vários elementos fundamentam um caminho no rumo da sustentabilidade. Os agroquímicos são mais certeiros, menos agressivos ao meio ambiente e trazem menores riscos de aplicação aos trabalhadores rurais. Nada, felizmente, piorou nessa agenda.
Surge agora, nos laboratórios, uma geração de moléculas que atuam exclusivamente sobre o metabolismo dos insetos-praga, bloqueando sinais vitais. Funcionam de forma seletiva, combatendo-os sem aniquilar os predadores naturais, nem afetar insetos benéficos ou animais mamíferos. No sentido ambiental, configuram-se como pesticidas não venenosos, deixando de ser “agrotóxicos”. Muita gente critica os defensivos químicos, considera agrotóxico um palavrão. Porém, mesmo na agricultura orgânica, imaginada como solução milagrosa, todavia, se permite utilizar caldas químicas elaboradas com sulfato de cobre, hidróxido de cálcio e enxofre.
Resumo da história: na escala requerida pela população, as lavouras sempre exigirão pesticidas contra organismos que as atacam. Importa o alimento ser saudável.

Tripé sustentável

22 fev

Publicado às 18h29

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É possível apontar 5 deformações no uso do conceito da sustentabilidade, conforme corriqueiramente se o utiliza no Brasil. A primeira delas entende a sustentabilidade como mero sinônimo de preservação ambiental, desprezando o lado econômico da equação. A segunda supervaloriza a inclusão social em detrimento da variável da economia verde. A terceira trata a agenda sustentável sem distinguir o caráter histórico, nivelando o desenvolvimento do Brasil com o da Europa. A quarta confunde sustentabilidade com marketing e filantropia empresarial. A quinta mistura messianismo religioso com desenvolvimento sustentável, propondo-se “salvadores do planeta”. A complexa agenda do desenvolvimento sustentável não suporta modismos, nem vinculação política, e exige muita ciência para avançar. Jamais, em qualquer caso, poderá desbalancear seu tripé básico: socialmente justo, economicamente viável, ecologicamente correto.

Aguá é vida.

7 fev

Publicado às 18h36

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O biólogo Fernando Reinach escreveu um interessante artigo no Estado falando sobre a seca e o fim da civilização maia. O tema foi, bem antes, tratado por Jared Diamond em seu magnífico livro “Colapso”. Os cientistas comprovaram que após reinarem por 800 anos na península de Yucatan, no México, os maias sucumbiram devido à superexploração dos recursos naturais, guerras insensatas, agravadas por secas recorrentes, de duração de uma década, ocorridas nos anos 820, depois 910 e, finalmente, a iniciada em 1000, que perdurou por um século, fazendo sucumbir aquela civilização pré-colombiana. Esse fato histórico ajuda a pensar o futuro da civilização humana. Nada assegura que a disponibilidade de água – potável, para irrigação agrícola, usos industriais e energéticos – seja uma constante no decorrer da história. Pelo contrário, ela pode variar dependendo dos ciclos climáticos e da relação de exploração do meio ambiente, na proteção dos mananciais, no controle da poluição, no combate ao desperdício. Esse momento que estamos passando no Brasil, de certa restrição nos volumes de água verificado nos reservatórios das hidrelétricas, mostra que o fenômeno do desaparecimento dos maias jamais poderá ser esquecido na economia verde do futuro.

Conservação do solo

29 jan

Publicado às 18h05

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Conservação do solo é a palavra-mágica da sustentabilidade no campo. E, nos países tropicais como o Brasil, o bicho-papão da agricultura se chama erosão. No passado recente, imensas áreas de terra recém-desbravadas perderam fertilidade e tornaram-se quase imprestáveis para uso agrícola devido ao processo erosivo causado por sucessivas arações, gradeamento dos solos e pela sua exposição superficial. Sempre se culpou as chuvas torrenciais pela erosão, causadora das terríveis voçorocas, verdadeiras cicatrizes da terra. Desde os anos 1950 a agronomia passou a recomendar o plantio em nível, somado aos terraços, murunduns construídos pelo terreno, como forma de controlar o escorrimento das águas. Nem sempre, todavia, sua eficácia resolvia o problema. Foi somente com o desenvolvimento da técnica do “plantio direto” que a erosão recebeu sua sentença de morte. No plantio direto não se ara mais o terreno, tampouco se o gradeia, mantendo o solo preservado em sua estrutura. Máquinas especializadas apenas revolvem a linha de plantio, colocando as sementes e o fertilizante no sulco cortado sobre a palha dessecada. O plantio direto representa uma verdadeira maravilha moderna da agronomia tropical. Seu emprego já ultrapassa 60% da área plantada no Brasil, atingindo acima de 90% na região do cerrado. O Centro-Oeste do país, com seus solos arenosos, estaria depauperado sem a utilização do novo sistema de plantio direto. Investir em tecnologia, no campo ou na cidade, é o caminho mais seguro para a economia verde do futuro.

A força do Centro-Oeste

22 jan

Publicado às 13h33

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O Brasil está interiorizando seu desenvolvimento. A economia do Centro-Oeste, onde se destaca o agronegócio de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, apresentou um crescimento de 3,3% em 2012. Embora modesto, esse valor foi sete vezes maior que aquele verificado na região Sudeste, que cresceu apenas 0,5%, embora nesta imperem as indústrias de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os dados foram divulgados pela consultoria Tendências. Percebe-se que a agropecuária, embora sofrendo as deficiências da infraestrutura logística e, de certa forma, amargando um descaso do governo, anda segurando a economia brasileira com o dinamismo verificado nas regiões mais distantes do litoral, onde tradicionalmente ocorreu o nosso desenvolvimento histórico. Esse aspecto da descentralização econômica é fundamental nas políticas de sustentabilidade. A economia verde do futuro não poderá prescindir da democratização das oportunidades pelo país afora, capaz de gerar um desenvolvimento mais limpo, conservacionista.

Poluição na China

16 jan

Publicado às 16h58

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A terrível poluição atmosférica que, nesses dias, detonou o meio ambiente urbano de Pequim (China), lembrou, aqui no Brasil, a época quando Cubatão, na Baixada Santista, recebeu da ONU o triste apelido de cidade mais poluída do mundo. Um vexame mundial se causou com os deslizamentos das encostas da Serra do Mar, fora as notícias horripilantes sobre nascimentos de bebês anencéfalos. Coube a Franco Montoro, eleito governador de São Paulo, em 1982, enfrentar pioneiramente a tragédia ecológica. As empresas se uniram, a sociedade exigiu, o governo atuou. Resultado: passados 30 anos, a poluição do ar em Cubatão se reduziu em 98%, segundo os dados laboratoriais da Cetesb. Moral da história: política ambiental funciona, dá resultado, quando sai do discurso e entra na ação concreta. Para tal ocorrer, porém, é preciso que exista decisão política, líderes com visão de futuro. Anda em falta, atualmente, tais estadistas, líderes resolutos capazes, mais que discursar, de conduzir o processo civilizatório rumo à economia verde. Veremos como os chineses vencerão seu desafio ambiental, sem amordaçar ainda mais a democracia por lá.

perfil do autor

Xico Graziano é engenheiro agrônomo e doutor em Administração pela FGV. Foi Secretário Estadual de Meio Ambiente em SP. Também é sócio-diretor da OIABrasil, é comentarista da TV Terra Viva/Grupo Band.





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